Dracula, de Bram Stoker



Já falei algumas vezes aqui sobre a minha paixão por vampiros e por Drácula, mais especificamente. Falei sobre Styria, uma adaptação de Carmilla, a novella do escritor irlandês Joseph Sheridan Le Fanu que serviu como inspiração para o também irlandês Bram Stoker em seu Drácula. Também falei sobre Byzantium e Only Lovers Left Alive (e ainda falta um texto sobre Kiss of the Damned). Também falei de filmes de vampiro dirigidos por mulheres

Pintura a óleo de Vlad Țepeș, de 1560, cópia de um
original pintado em vida. Se era feio assim no
quadro, imagine pessoalmente?
É quase impossível encontrar uma pessoa que não conheça a figura que inspirou Bram Stoker a criar o vampiro de capa longa que vive num sombrio castelo numa região montanhosa no leste europeu. Inspirado no voivode (príncipe) Vlad III, conhecido como Drăculea, derivado da “Ordem do Dragão”, uma ordem cavalheiresca medieval fundada em 1408 pelo sacro imperador romano Sigismundo da Hungria. Vlad Drácula foi três vezes príncipe da Valáquia entre 1448 e 1476 – nesse período não existia Romênia, e a Valáquia foi um principado até 1859. Não se sabe ao certo sua data de nascimento nem de sua morte, sendo considerado seu nascimento entre 1428 e 1431, e sua morte em 1476 e 1477. Essa região viveu um intenso conflito com os Turcos-Otomanos até que, em 1417, aceitou a suserania Otomana, que durou até o século 19. Numa das várias tentativas de expulsar os Otomanos do território valaquiano, Vlad lutou contra os saxões da Transilvânia e os empalou. Quando Maomé II, sultão Otomano, exigiu tributos de Vlad ele... bem, empalou seus emissários também. O número aproximado de empalhamentos de Vlad gira em torno de 20,000. Esse gosto de Vlad pelo empalhamento lhe garantiu a alcunha póstuma de Țepeș, “empalador” na língua romena.

No romance, o príncipe virou conde e assumiu o título da ordem a que pertencia. Dracula, um vampiro de aproximadamente quatro séculos e meio, vive num castelo nos Cárpatos, na Romênia (quando o livro foi escrito, a região já estava unificada), e deseja mudar-se para a Inglaterra. Assim, o jovem advogado Jonathan Harker vai até seu castelo, onde lhe prestará auxílio jurídico em relação aos trâmites necessários para a mudança. Harker é muito bem recebido pelo conde, mas logo percebe que está sendo mantido como refém no castelo e, após o ataque das “Noivas de Drácula”, três irmãs vampiras, das quais é salvo pelo próprio conde, descobre que seu anfitrião, é, também, um vampiro.

Drácula abandona Harker no castelo e parte para a Inglaterra no navio russo Deméter. Em Whitby, na costa inglesa, o navio encalha e aqui temos uma cena que marcou minha infância: o capitão do navio está morto e amarrado ao leme do navio enquanto um grande lobo salta para a terra. No navio, são encontradas 50 caixas contendo terra que, posteriormente, descobre-se que deveriam ir para cada uma das cinquenta propriedades adquiridas por Drácula em Londres sob o pseudônimo de “Conde De Ville” (ohnnn).

Enquanto isso, Drácula mantém uma conexão com Renfield, um paciente psiquiátrico do Dr. Seward – noivo de Lucy Westenra, melhor amiga de Mina Murray, por sua vez, noiva de Jonathan Harker. Renfield se alimenta de insetos, pequenas aves, aranhas e ratos para “absorver sua força vital”, e também sente a presença do conde, a quem chama de “mestre”. Simultanemanete, Lucy passa a apesentar um comportamento estranho e sonambulismo, e lentamente passa a definhar, levantando suspeitas por parte de seu noivo, que entra em contato com o Professor Abraham Van Helsing. Ao constatar o comportamento de Lucy, Van Helsing percebe algo que não conta ao noivo da moça, e como ela apresenta um quadro severo de anemia, prescreve transfusões de sangue e também que sejam encomendadas flores de alho para seu quarto. Ao ver que a filha se sente sufocada pelo cheiro forte das flores, a Sra. Westenra as remove do quarto. Em determinado momento, Van Helsing e Seward descobrem duas perfurações no pescoço de Lucy, confirmando as suspeitas do médico mais velho, que pendura um crucifixo em seu pescoço, que é removido por outra pessoa. Dias depois, Lucy morre, mas, mesmo assim, surgem relatos de crianças que estão sendo atacadas pela “bela senhora”, despertando a desconfiança em Van Helsing de que a moça se tornou uma vampira – dito e feito, a moça se tornara uma vampira.

Mas, para além de um “simples” romance vitoriano em que o anti-heroi se apaixona pela mocinha, Drácula tem outras camadas. O racismo científico, fruto do século XIX, considerava como superiores apenas brancos (com ênfase na masculinidade, pois mulheres, mesmo brancas e ricas, ainda eram vistas como inferiores). Além da branquitude, o sujeito tinha que ser ocidental e rico. Mesmo o homem branco inglês, mas operário, não era considerado portador desse status de superioridade. A própria “ocidentalidade” tinha suas gradações: ingleses, franceses, escandinavos, alemães... depois da Alemanha, não era tão branco – ainda que fosse obviamente branco. Portanto, essa sociedade inglesa, burguesa e altamente preconceituosa tinha um medo imenso do Outro, e nada melhor do que um monstro de outro país, principalmente desse país antes parte do Império Otomano, de “hábitos estranhos”, católico e “supersticioso”, para despertar o medo dos ingleses de uma possível invasão estrangeira, e Drácula era a personificação desse Outro que espertava o medo irracional que os ingleses tinham de sofrer o que fizeram sofrer outros povos.

Assim como o racismo vitoriano, cujos efeitos sentimos ainda nos dias atuais, Drácula também contém uma lição para as mulheres: se comportem! Lucy não é “bela, recatada e do lar” (ok, ela é bela), então não merece ser salva. Lucy flerta com três homens – John Seward, Quincey Morris e Arthur Holmwood – mas acaba ficando noiva de Seward. Ela cai nas garras do invasor e sofre as consequências de sua depravação moral. Lucy não morre, mas fica num estagio entre a vida e a morte, e ainda persegue crianças pra se alimentar – o desejo de ser mãe, possivelmente, a arrasta a procurar crianças, porque como vocês sabem, é [ironia]desejo de todas as mulheres se tornarem mães[/ironia]. As Noivas, que atacam Jonathan (e que se rende a elas, enquanto sua “mina” – perdão – permanece fiel na Inglaterra), também representam a depravação da “mulher livre”, ainda que obedeçam ao seu “marido”, Drácula. Mina, por outro lado, se enquadra nesse estereótipo, sendo fiel a seu noivo, e, portanto, merece ser salva, enquanto Jonathan se diverte com as Noivas, afinal, ao homem é permitido se deixar seduzir. A culpa não é dele se ele é gostoso, não é mesmo? Além disso, Drácula foi escrito no mesmo ano em que foi fundada a União Nacional da Sociedade do Sufrágio Feminino, então é só ligar os pontos.


Miga, o crush chegou. Aja naturalmente!

Nessa edição de Drácula da Darkside, traduzida por Marcia Heloisa, a editora reviveu as capas amarela e preta originais do romance, publicadas em 1897 pela Archibald Constable and Company. Além das belas capas, a edição conta com material extra como o prelúdio escrito por Dacré Stoker, o conto “O Hóspede de Drácula”, que ficou de fora da publicação original e textos de apoio de Carlos Primatti e da Marcia Heloisa.





Se interessou e quer ler mais sobre vampiros e Drácula? Selecionei alguns artigos pra você:


E feliz Keanu novo <3


Revisão por Camila Buzzo.

Comentários

  1. Um dos textos mais legais que li sobre Drácula. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Ah, que texto MARA.. muito bem escrito e pertinente.
    É muito refrescante ler uma análise que adiciona pontos de vista a uma obra tão antiga e estudada. Parabéns pelo texto (e pela belíssima mão)

    ResponderExcluir

Postar um comentário